segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Operando no caos com Bill Williams

 O software MetaTrader 5 dispõe gratuitamente de muitos indicadores. Embora os conheça há muito tempo, só recentemente tive o interesse de saber mais a respeito daqueles que tem o rótulo de Bill M. Williams. 

Esse texto abordará algumas características do sistema que pode ser apelidado de Chaos Trading, o sistema de operações financeiras desenvolvido pelo trader norte americano Bill M. Williams.

O papo é reto.

Sendo bem sincero com o leitor, deve haver uma boa razão para que Bill denomine seu sistema de Chaos Trading, mas eu não quis saber a respeito. Eu me dediquei apenas a entender como os indicadores funcionam. Li do terceiro capítulo dos seus livros em diante. 

Parece muito irônico que, para lidar com o que ele chama de caos, sua abordagem não seja nada caótica. Muito pelo contrário! Bill é extremamente metódico. O método e a ordem se opõem ao caos. 

Ao me deparar com o funcionamento dos indicadores, eu descobri um sistema completo de trading, completamente funcional e tão prático que eu nem precisei ler os fundamentos filosóficos para entendê-lo.

O que seria um sistema completo de trading? 

  • Ele se preocupa com a mentalidade do trader (aquela palavra que eu odeio por despertar lembranças amargas e que os traders brasileiros adoram repetir, mindset). Mas eu confesso que pulei os capítulos que falam disso. 
  • Ele tem critérios objetivos não apenas de entrada na operação, mas também de saída e de adição de mais ativos à posição. Realmente, isso me impressionou. Não é qualquer sistema que vai te dar critérios objetivos pra sair de uma operação, tampouco de adicionar mais contratos/ações à sua posição já aberta. Bill o faz.

Se o sistema que você segue não tem todos os elementos acima definidos claramente, me desculpe, mas ele não é completo. 

É claro que eu não vou descrever o sistema inteiro de Bill numa única página, mas coloco aqui um resumo que pode suscitar a curiosidade de traders iniciantes e que necessitem de um sistema objetivo o bastante para ser executado de maneira robótica - quanto menos emoções envolvidas no trade, melhor para o trader. 

Pode ser que você precise de algo que vai te deixar mais relaxado, sem ter que tomar tantas decisões em cima da hora. Se você precisa disso, esse sistema é o ideal. 

Eu vou fornecer um diagrama de fluxo das operações de compra e de venda propostas na segunda edição do livro Chaos Trading (CT). Para que você entenda o que está nesses dois diagramas, vai precisar ler o livro - e não se assuste com isso, porque eu consegui ler a maioria dos capítulos numa noite. O texto é rápido e bem escrito, totalmente o oposto dos livros de Al Brooks. 

Três critérios de entrada.

O sistema de Bill M. Williams se apoia em três indicadores que fornecem critérios de entrada na operação:

  1. O Alligator (jacaré em inglês): um conjunto de três médias móveis suavizadas e avançadas, plotadas acima do preço. 
  2. Awesome Oscillator (Oscilador Incrível): um oscilador parecido com MACD, mas que visa detectar momentum (aceleração) do preço.
  3. Fractal: O fractal de alta nada mais é que um candle que tem a máxima maior que as máximas dos dois candles anteriores e dos dois posteriores; e o fractal de venda tem a mínima menor do que as mínimas dos dois candles anteriores e dos dois posteriores. 
Como disse no começo do artigo, o MetaTrader5 plota todos esses indicadores gratuitamente. Abaixo, mostro o que seria uma tela do MT5 com um template para o Chaos Trading:

Uma coisa que fica clara na edição mais recente do CT é que devemos escolher um dos três indicadores como critério de entrada na operação, deixando os restantes como critérios para adicionar mais posições. 

Idealmente, o melhor critério de entrada seria por uma barra divergente e longe do Jacaré (leia o livro que você vai entender!). Mas pode acontecer de não haver esse critério, enquanto um dos dois restantes esteja disponível. Nesse caso, é óbvio que se pode entrar pelos critérios 2 ou 3, embora, pela ordem apresentada pelo autor, eles sejam mais fracos.

Trades contra a tendência?!

O autor recomenda o que parece uma operação contra a tendência - muito embora isso mereça um esclarecimento. Na verdade, o correto seria dizer que as operações seriam "contra o final de uma tendência".
As operações sugeridas por Bill seriam feitas ao final de uma tendência, de modo a aproveitar a próxima tendência desde o seu início
Na verdade, nunca a máxima "compre na baixa, venda na alta"foi tão seguida à risca. 

Esse sistema surgiu diante de um questionamento:
Como se aproveitar das maiores oscilações de preço do mercado desde o início?
O mercado fica em range (lateralizações) 80% do tempo, e em tendência apenas 20%. Quando o range é largo, é até fácil comprar na baixa e vender na alta, mas os ranges estreitos são verdadeiros cemitérios de traders inexperientes. Agora, se o trader novato tem um indicador chamado "Jacaré" com critérios super objetivos para não operar essas lateralizações perigosas, ele vai economizar MUITO dinheiro simplesmente não operando!

Conclusões.

Essa postagem não traz recomendações de um sistema de trading infalível. Na verdade, eu só estou compartilhando isso porque defendo a mesma crença de Mark Douglas: de que a maioria dos sistemas de trading consolidados no mercado por anos realmente podem trazer lucro consistente aos seus operadores, desde que o trader tenha a mentalidade e o gerenciamento de risco corretos.

Portanto, a busca do sistema ideal é aquele que mais se adeque às suas necessidades. Considero o Chaos Trading um sistema que não desampara o trader novato em nenhum momento do mercado (ao contrário de muito sistema ensinado por dono de cursinho brasileiro por aí). 

Como prometido, aqui estão os fluxogramas de compra:


Bem como o de venda:


Você só vai entender os detalhes se ler a 2ª edição do livro Chaos Trading. Ou encontrar algum resumo bom pela internet. 



sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Porque não me adaptei ao tape reading?

 Interpretação de texto/fala é muito importante. Tão ou mais importante que interpretação de mercado, porque dela depende todo aprendizado que você possa ter, incluindo o aprendizado do mercado. Não adianta pagar por um curso de 4 mil reais se você não entende o que o professor fala.

Perceba que o título não é "Tape Reading não funciona", mas sim "por que não me adaptei ao tape reading?". 

Já tenho algum tempo de mercado para perceber que não existe apenas uma única maneira de se ganhar dinheiro na bolsa. Então não acredito que apenas o Tape Reading, ou que apenas o price action, ou que apenas as ondas de Elliott serão capazes de dar lucros. 

Na verdade, o que dará lucros consistentes a você será um sistema:

  1. Que se adapte bem à sua personalidade
  2. Que tenha uma boa gestão de risco

Dentre os dois acima, o Tape Reading (TR) não preencheu o item 1 no meu caso. E o item 2 praticamente é o mesmo para a maioria dos sistemas de trading do mercado. Crie maneiras de ganhar mais do que perder, e estará dentro.

Posso me considerar uma pessoa altamente visual. Sempre gostei de artes visuais: design, pintura, história em quadrinhos. Perceber padrões visuais sempre fez parte da minha jornada enquanto desenhista amador. 

Eis que, um belo dia, descubro o mercado financeiro, com os gráficos e seus padrões. Após alguns anos dentro desse caminho, se abre diante de mim uma outra estrada, uma bifurcação: o tape reading, com suas listas intermináveis de números de seis dígitos, piscando em alta velocidade na tela. Operar passou a ser a percepção do fluxo de ordens e seu contraste com o Times and Trades

Eu me aventurei pelo Tape Reading duas vezes. Inicialmente, posso dizer que já não gostei de deixar o gráfico. Digam o que quiserem, mas no Tape Reading ele é opcional. O mais importante é ficar atento aos números de uma tabela estilizada, o Super DOM (Depth Of Market, uma coluna enorme com preços de compra e venda dos dois lados) e o já mencionado Times and Trades, uma tabela que lista os negócios já feitos.

Progredir no mercado é uma coisa que exige tempo. O estudante experimentará perdas no início, é absolutamente normal. Entretanto, na maioria dos casos em que os estudantes persistem nesse estudo, é porque, entre as perdas, há um lucro inicial, algumas operações vencedoras fascinantes, que dão esperanças e força para continuar. Pois com o Tape Reading, eu posso dizer a vocês que o lucro inicial para mim foi quase nulo.

Junte a minha predileção por padrões visuais, mais o fato de não ter lucrado, e temos aí a receita para a antipatia por um método. 

Até agora, eu só falei de predileções - gostar ou não gostar de alguma coisa, por alguma razão. Só que eu não citei o que seria a razão mais importante a me impedir a adaptação ao Tape Reading: eu precisaria vencer um certo desafio neuropsiquiátrico, uma pequena deficiência que possuo. 

Não tenho vergonha ou receio de admitir que possuo diagnóstico de distimia, uma depressão crônica de baixa intensidade e provavelmente um déficit de atenção (sem hiperatividade). E onde há transtornos psiquiátricos, pode haver algum déficit cognitivo. Ricardo Boechat, o saudoso jornalista da Band News, quando teve um episódio depressivo, não conseguia elaborar frases. Este é um exemplo perfeito da depressão afetando a cognição da pessoa. 

Não será exatamente do mesmo jeito com todas as pessoas afetadas por um transtorno psiquiátrico. No meu caso, porém, o transtorno depressivo leve que possuo, mais o déficit de atenção, além de prejudicar a atenção, me dá um certo grau de discalculia. 

A discalculia é uma dificuldade em se lidar com números. Existem graus variados de discalculia. Crianças podem ter dificuldade de saber qual número vem antes ou depois de outro, ou não conseguirem fazer operações aritméticas básicas. No meu caso, a discalculia me impede de discernir, com velocidade, a diferença entre os dois números abaixo:

111915

111951

O preço do mini-índice passou por esses números hoje. No gráfico, é perfeitamente possível discernir a diferença entre ambos, porque a visualização dos dados depende de orientação espacial, na qual sou fera. Soma-se a isso que os números ficam parados no eixo X do gráfico: eles não ficam piscando, aparecendo e reaparecendo loucamente como no Tape Reading.

A maioria das pessoas, em circunstâncias ótimas, depois de uma boa noite de sono e uma refeição que lhe deu glicose o suficiente (o maior combustível do cérebro), não tem discalculia. Mas ela pode aparecer com o cansaço mental. 

Até os atletas do trading tem seus limites mentais, e até hoje conheço professores de TR que simplesmente não conseguem colocá-lo em prática no mini-índice, de tão volátil e rápido que ele pode ser. Os números ali mudam tão rapidamente que só um ser humano com o poder divino de congelar o tempo permitiria analisar o fluxo do ativo sem um gráfico ao lado. 

A verdade é que o TR serve melhor a ativos com menor volatilidade. Seus traders podem ser encontrados no mini dólar e no dólar e índice cheios, cujas alterações costumam ser bem mais lentas que no mini índice.

O método de Tape Reading pode funcionar muito bem, e eu tenho testemunhos que, se não forem mentirosos, mostram isso. No meu caso, entretanto, ele passa longe de qualquer coisa que seja agradável o suficiente para se ficar diante de uma tela de computador por mais de quatro horas. Sem contar que o meu ativo de preferência é o mini índice, e ali ainda parece impossível pô-lo em prática.