Interpretação de texto/fala é muito importante. Tão ou mais importante que interpretação de mercado, porque dela depende todo aprendizado que você possa ter, incluindo o aprendizado do mercado. Não adianta pagar por um curso de 4 mil reais se você não entende o que o professor fala.
Perceba que o título não é "Tape Reading não funciona", mas sim "por que não me adaptei ao tape reading?".
Já tenho algum tempo de mercado para perceber que não existe apenas uma única maneira de se ganhar dinheiro na bolsa. Então não acredito que apenas o Tape Reading, ou que apenas o price action, ou que apenas as ondas de Elliott serão capazes de dar lucros.
Na verdade, o que dará lucros consistentes a você será um sistema:
- Que se adapte bem à sua personalidade
- Que tenha uma boa gestão de risco
Dentre os dois acima, o Tape Reading (TR) não preencheu o item 1 no meu caso. E o item 2 praticamente é o mesmo para a maioria dos sistemas de trading do mercado. Crie maneiras de ganhar mais do que perder, e estará dentro.
Posso me considerar uma pessoa altamente visual. Sempre gostei de artes visuais: design, pintura, história em quadrinhos. Perceber padrões visuais sempre fez parte da minha jornada enquanto desenhista amador.
Eis que, um belo dia, descubro o mercado financeiro, com os gráficos e seus padrões. Após alguns anos dentro desse caminho, se abre diante de mim uma outra estrada, uma bifurcação: o tape reading, com suas listas intermináveis de números de seis dígitos, piscando em alta velocidade na tela. Operar passou a ser a percepção do fluxo de ordens e seu contraste com o Times and Trades.
Eu me aventurei pelo Tape Reading duas vezes. Inicialmente, posso dizer que já não gostei de deixar o gráfico. Digam o que quiserem, mas no Tape Reading ele é opcional. O mais importante é ficar atento aos números de uma tabela estilizada, o Super DOM (Depth Of Market, uma coluna enorme com preços de compra e venda dos dois lados) e o já mencionado Times and Trades, uma tabela que lista os negócios já feitos.
Progredir no mercado é uma coisa que exige tempo. O estudante experimentará perdas no início, é absolutamente normal. Entretanto, na maioria dos casos em que os estudantes persistem nesse estudo, é porque, entre as perdas, há um lucro inicial, algumas operações vencedoras fascinantes, que dão esperanças e força para continuar. Pois com o Tape Reading, eu posso dizer a vocês que o lucro inicial para mim foi quase nulo.
Junte a minha predileção por padrões visuais, mais o fato de não ter lucrado, e temos aí a receita para a antipatia por um método.
Até agora, eu só falei de predileções - gostar ou não gostar de alguma coisa, por alguma razão. Só que eu não citei o que seria a razão mais importante a me impedir a adaptação ao Tape Reading: eu precisaria vencer um certo desafio neuropsiquiátrico, uma pequena deficiência que possuo.
Não tenho vergonha ou receio de admitir que possuo diagnóstico de distimia, uma depressão crônica de baixa intensidade e provavelmente um déficit de atenção (sem hiperatividade). E onde há transtornos psiquiátricos, pode haver algum déficit cognitivo. Ricardo Boechat, o saudoso jornalista da Band News, quando teve um episódio depressivo, não conseguia elaborar frases. Este é um exemplo perfeito da depressão afetando a cognição da pessoa.
Não será exatamente do mesmo jeito com todas as pessoas afetadas por um transtorno psiquiátrico. No meu caso, porém, o transtorno depressivo leve que possuo, mais o déficit de atenção, além de prejudicar a atenção, me dá um certo grau de discalculia.
A discalculia é uma dificuldade em se lidar com números. Existem graus variados de discalculia. Crianças podem ter dificuldade de saber qual número vem antes ou depois de outro, ou não conseguirem fazer operações aritméticas básicas. No meu caso, a discalculia me impede de discernir, com velocidade, a diferença entre os dois números abaixo:
111915
111951
O preço do mini-índice passou por esses números hoje. No gráfico, é perfeitamente possível discernir a diferença entre ambos, porque a visualização dos dados depende de orientação espacial, na qual sou fera. Soma-se a isso que os números ficam parados no eixo X do gráfico: eles não ficam piscando, aparecendo e reaparecendo loucamente como no Tape Reading.
A maioria das pessoas, em circunstâncias ótimas, depois de uma boa noite de sono e uma refeição que lhe deu glicose o suficiente (o maior combustível do cérebro), não tem discalculia. Mas ela pode aparecer com o cansaço mental.
Até os atletas do trading tem seus limites mentais, e até hoje conheço professores de TR que simplesmente não conseguem colocá-lo em prática no mini-índice, de tão volátil e rápido que ele pode ser. Os números ali mudam tão rapidamente que só um ser humano com o poder divino de congelar o tempo permitiria analisar o fluxo do ativo sem um gráfico ao lado.
A verdade é que o TR serve melhor a ativos com menor volatilidade. Seus traders podem ser encontrados no mini dólar e no dólar e índice cheios, cujas alterações costumam ser bem mais lentas que no mini índice.
O método de Tape Reading pode funcionar muito bem, e eu tenho testemunhos que, se não forem mentirosos, mostram isso. No meu caso, entretanto, ele passa longe de qualquer coisa que seja agradável o suficiente para se ficar diante de uma tela de computador por mais de quatro horas. Sem contar que o meu ativo de preferência é o mini índice, e ali ainda parece impossível pô-lo em prática.
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