segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Operando no caos com Bill Williams

 O software MetaTrader 5 dispõe gratuitamente de muitos indicadores. Embora os conheça há muito tempo, só recentemente tive o interesse de saber mais a respeito daqueles que tem o rótulo de Bill M. Williams. 

Esse texto abordará algumas características do sistema que pode ser apelidado de Chaos Trading, o sistema de operações financeiras desenvolvido pelo trader norte americano Bill M. Williams.

O papo é reto.

Sendo bem sincero com o leitor, deve haver uma boa razão para que Bill denomine seu sistema de Chaos Trading, mas eu não quis saber a respeito. Eu me dediquei apenas a entender como os indicadores funcionam. Li do terceiro capítulo dos seus livros em diante. 

Parece muito irônico que, para lidar com o que ele chama de caos, sua abordagem não seja nada caótica. Muito pelo contrário! Bill é extremamente metódico. O método e a ordem se opõem ao caos. 

Ao me deparar com o funcionamento dos indicadores, eu descobri um sistema completo de trading, completamente funcional e tão prático que eu nem precisei ler os fundamentos filosóficos para entendê-lo.

O que seria um sistema completo de trading? 

  • Ele se preocupa com a mentalidade do trader (aquela palavra que eu odeio por despertar lembranças amargas e que os traders brasileiros adoram repetir, mindset). Mas eu confesso que pulei os capítulos que falam disso. 
  • Ele tem critérios objetivos não apenas de entrada na operação, mas também de saída e de adição de mais ativos à posição. Realmente, isso me impressionou. Não é qualquer sistema que vai te dar critérios objetivos pra sair de uma operação, tampouco de adicionar mais contratos/ações à sua posição já aberta. Bill o faz.

Se o sistema que você segue não tem todos os elementos acima definidos claramente, me desculpe, mas ele não é completo. 

É claro que eu não vou descrever o sistema inteiro de Bill numa única página, mas coloco aqui um resumo que pode suscitar a curiosidade de traders iniciantes e que necessitem de um sistema objetivo o bastante para ser executado de maneira robótica - quanto menos emoções envolvidas no trade, melhor para o trader. 

Pode ser que você precise de algo que vai te deixar mais relaxado, sem ter que tomar tantas decisões em cima da hora. Se você precisa disso, esse sistema é o ideal. 

Eu vou fornecer um diagrama de fluxo das operações de compra e de venda propostas na segunda edição do livro Chaos Trading (CT). Para que você entenda o que está nesses dois diagramas, vai precisar ler o livro - e não se assuste com isso, porque eu consegui ler a maioria dos capítulos numa noite. O texto é rápido e bem escrito, totalmente o oposto dos livros de Al Brooks. 

Três critérios de entrada.

O sistema de Bill M. Williams se apoia em três indicadores que fornecem critérios de entrada na operação:

  1. O Alligator (jacaré em inglês): um conjunto de três médias móveis suavizadas e avançadas, plotadas acima do preço. 
  2. Awesome Oscillator (Oscilador Incrível): um oscilador parecido com MACD, mas que visa detectar momentum (aceleração) do preço.
  3. Fractal: O fractal de alta nada mais é que um candle que tem a máxima maior que as máximas dos dois candles anteriores e dos dois posteriores; e o fractal de venda tem a mínima menor do que as mínimas dos dois candles anteriores e dos dois posteriores. 
Como disse no começo do artigo, o MetaTrader5 plota todos esses indicadores gratuitamente. Abaixo, mostro o que seria uma tela do MT5 com um template para o Chaos Trading:

Uma coisa que fica clara na edição mais recente do CT é que devemos escolher um dos três indicadores como critério de entrada na operação, deixando os restantes como critérios para adicionar mais posições. 

Idealmente, o melhor critério de entrada seria por uma barra divergente e longe do Jacaré (leia o livro que você vai entender!). Mas pode acontecer de não haver esse critério, enquanto um dos dois restantes esteja disponível. Nesse caso, é óbvio que se pode entrar pelos critérios 2 ou 3, embora, pela ordem apresentada pelo autor, eles sejam mais fracos.

Trades contra a tendência?!

O autor recomenda o que parece uma operação contra a tendência - muito embora isso mereça um esclarecimento. Na verdade, o correto seria dizer que as operações seriam "contra o final de uma tendência".
As operações sugeridas por Bill seriam feitas ao final de uma tendência, de modo a aproveitar a próxima tendência desde o seu início
Na verdade, nunca a máxima "compre na baixa, venda na alta"foi tão seguida à risca. 

Esse sistema surgiu diante de um questionamento:
Como se aproveitar das maiores oscilações de preço do mercado desde o início?
O mercado fica em range (lateralizações) 80% do tempo, e em tendência apenas 20%. Quando o range é largo, é até fácil comprar na baixa e vender na alta, mas os ranges estreitos são verdadeiros cemitérios de traders inexperientes. Agora, se o trader novato tem um indicador chamado "Jacaré" com critérios super objetivos para não operar essas lateralizações perigosas, ele vai economizar MUITO dinheiro simplesmente não operando!

Conclusões.

Essa postagem não traz recomendações de um sistema de trading infalível. Na verdade, eu só estou compartilhando isso porque defendo a mesma crença de Mark Douglas: de que a maioria dos sistemas de trading consolidados no mercado por anos realmente podem trazer lucro consistente aos seus operadores, desde que o trader tenha a mentalidade e o gerenciamento de risco corretos.

Portanto, a busca do sistema ideal é aquele que mais se adeque às suas necessidades. Considero o Chaos Trading um sistema que não desampara o trader novato em nenhum momento do mercado (ao contrário de muito sistema ensinado por dono de cursinho brasileiro por aí). 

Como prometido, aqui estão os fluxogramas de compra:


Bem como o de venda:


Você só vai entender os detalhes se ler a 2ª edição do livro Chaos Trading. Ou encontrar algum resumo bom pela internet. 



sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Porque não me adaptei ao tape reading?

 Interpretação de texto/fala é muito importante. Tão ou mais importante que interpretação de mercado, porque dela depende todo aprendizado que você possa ter, incluindo o aprendizado do mercado. Não adianta pagar por um curso de 4 mil reais se você não entende o que o professor fala.

Perceba que o título não é "Tape Reading não funciona", mas sim "por que não me adaptei ao tape reading?". 

Já tenho algum tempo de mercado para perceber que não existe apenas uma única maneira de se ganhar dinheiro na bolsa. Então não acredito que apenas o Tape Reading, ou que apenas o price action, ou que apenas as ondas de Elliott serão capazes de dar lucros. 

Na verdade, o que dará lucros consistentes a você será um sistema:

  1. Que se adapte bem à sua personalidade
  2. Que tenha uma boa gestão de risco

Dentre os dois acima, o Tape Reading (TR) não preencheu o item 1 no meu caso. E o item 2 praticamente é o mesmo para a maioria dos sistemas de trading do mercado. Crie maneiras de ganhar mais do que perder, e estará dentro.

Posso me considerar uma pessoa altamente visual. Sempre gostei de artes visuais: design, pintura, história em quadrinhos. Perceber padrões visuais sempre fez parte da minha jornada enquanto desenhista amador. 

Eis que, um belo dia, descubro o mercado financeiro, com os gráficos e seus padrões. Após alguns anos dentro desse caminho, se abre diante de mim uma outra estrada, uma bifurcação: o tape reading, com suas listas intermináveis de números de seis dígitos, piscando em alta velocidade na tela. Operar passou a ser a percepção do fluxo de ordens e seu contraste com o Times and Trades

Eu me aventurei pelo Tape Reading duas vezes. Inicialmente, posso dizer que já não gostei de deixar o gráfico. Digam o que quiserem, mas no Tape Reading ele é opcional. O mais importante é ficar atento aos números de uma tabela estilizada, o Super DOM (Depth Of Market, uma coluna enorme com preços de compra e venda dos dois lados) e o já mencionado Times and Trades, uma tabela que lista os negócios já feitos.

Progredir no mercado é uma coisa que exige tempo. O estudante experimentará perdas no início, é absolutamente normal. Entretanto, na maioria dos casos em que os estudantes persistem nesse estudo, é porque, entre as perdas, há um lucro inicial, algumas operações vencedoras fascinantes, que dão esperanças e força para continuar. Pois com o Tape Reading, eu posso dizer a vocês que o lucro inicial para mim foi quase nulo.

Junte a minha predileção por padrões visuais, mais o fato de não ter lucrado, e temos aí a receita para a antipatia por um método. 

Até agora, eu só falei de predileções - gostar ou não gostar de alguma coisa, por alguma razão. Só que eu não citei o que seria a razão mais importante a me impedir a adaptação ao Tape Reading: eu precisaria vencer um certo desafio neuropsiquiátrico, uma pequena deficiência que possuo. 

Não tenho vergonha ou receio de admitir que possuo diagnóstico de distimia, uma depressão crônica de baixa intensidade e provavelmente um déficit de atenção (sem hiperatividade). E onde há transtornos psiquiátricos, pode haver algum déficit cognitivo. Ricardo Boechat, o saudoso jornalista da Band News, quando teve um episódio depressivo, não conseguia elaborar frases. Este é um exemplo perfeito da depressão afetando a cognição da pessoa. 

Não será exatamente do mesmo jeito com todas as pessoas afetadas por um transtorno psiquiátrico. No meu caso, porém, o transtorno depressivo leve que possuo, mais o déficit de atenção, além de prejudicar a atenção, me dá um certo grau de discalculia. 

A discalculia é uma dificuldade em se lidar com números. Existem graus variados de discalculia. Crianças podem ter dificuldade de saber qual número vem antes ou depois de outro, ou não conseguirem fazer operações aritméticas básicas. No meu caso, a discalculia me impede de discernir, com velocidade, a diferença entre os dois números abaixo:

111915

111951

O preço do mini-índice passou por esses números hoje. No gráfico, é perfeitamente possível discernir a diferença entre ambos, porque a visualização dos dados depende de orientação espacial, na qual sou fera. Soma-se a isso que os números ficam parados no eixo X do gráfico: eles não ficam piscando, aparecendo e reaparecendo loucamente como no Tape Reading.

A maioria das pessoas, em circunstâncias ótimas, depois de uma boa noite de sono e uma refeição que lhe deu glicose o suficiente (o maior combustível do cérebro), não tem discalculia. Mas ela pode aparecer com o cansaço mental. 

Até os atletas do trading tem seus limites mentais, e até hoje conheço professores de TR que simplesmente não conseguem colocá-lo em prática no mini-índice, de tão volátil e rápido que ele pode ser. Os números ali mudam tão rapidamente que só um ser humano com o poder divino de congelar o tempo permitiria analisar o fluxo do ativo sem um gráfico ao lado. 

A verdade é que o TR serve melhor a ativos com menor volatilidade. Seus traders podem ser encontrados no mini dólar e no dólar e índice cheios, cujas alterações costumam ser bem mais lentas que no mini índice.

O método de Tape Reading pode funcionar muito bem, e eu tenho testemunhos que, se não forem mentirosos, mostram isso. No meu caso, entretanto, ele passa longe de qualquer coisa que seja agradável o suficiente para se ficar diante de uma tela de computador por mais de quatro horas. Sem contar que o meu ativo de preferência é o mini índice, e ali ainda parece impossível pô-lo em prática.


quinta-feira, 1 de outubro de 2020

como é bom sentir tédio.

Já ouvi uma frase parecida com essa (não importa o quão exata é minha memória, o que importa é a ideia central):

Não é bom treinar em conta demo porque você não está treinando as emoções envolvidas no trading

Preciso dissecar melhor o que penso dessa frase. Vai parecer que eu discordo dela, mas é diferente de simplesmente discordar.

Essa frase está certa, pra quem começa errado na essência. Trading não é pra sentir emoções fortes. Trading é pra executar um plano detalhado, o que inclui os cenários de stop loss e alvo. Fazer isso deveria dar um puta tédio nas pessoas, mas vejo o oposto por aí: gente hiper excitada nas redes sociais, tratando o trading como se estivesse comemorando numa noitada - e o pior, comemorando antes de conseguir, e se escondendo vergonhosamente ao falhar.

Quem sou eu pra falar isso?

Antes de você ficar irritado com o que está lendo e ter um ataque de rage nos comentários: já fiz vários cursos de trading. Lucrei com vários deles, mas ainda não tenho consistência. 90% do mercado está como eu hoje em dia. Eu sou mais um. Tenho PLENA consciência disso, e não me ofendo sendo chamado de sardinha ou qualquer coisa similar. 

Muitos querem ouvir os profissionais que tiram dinheiro consistentemente do mercado, e vão ignorar zé ruelas como eu. Mas eu acho que você deveria me escutar, porque eu trago algumas verdades que me ajudaram muito a evoluir. 

Eu não preciso ser um profissional consistente para dizer que a Terra é redonda (geóide, mas deixa pra lá) ou que o mar é azulado. As verdades são verdades, independentemente de quem as diz. Existem exemplos positivos, nos quais devemos nos espelhar, e exemplos negativos, que são modelos do que não deve ser feito. Ambos são muito úteis no aprendizado.

Então me escute, porque eu sou o caminho do meio. Eu não sou o cara que faz milhões por ano e está num patamar que parece inalcançável. Também não sou o cara que quebrou a conta, pôs a família em risco e, hoje, repete amargamente na internet que trade não dá em nada. 

Eu sou o cara que está aprendendo com seus erros, e se tornando uma pessoa cada vez melhor naquilo que aspira. O cara que não perdeu as esperanças porque sempre teve a cabeça no lugar e só perdeu grana pequena, apenas zerando a mixaria que pôs no jogo. 

Voltando ao principal

Então citemos novamente a frase acima:

Não é bom treinar em conta demo porque você não está treinando as emoções envolvidas no trading

Pros sistemas operacionais que eu vejo por aí, a frase acima faz todo sentido. 

Muitos sistemas não preparam o aluno para gerenciar seu capital, apenas se preocupando em estudar os sinais de entrada nos trades. 

Muitos sistemas não preparam o aluno para as configurações do mercado nas quais seria inteligente e sábio não entrar. 

O ser humano tolera até um certo nível de incerteza. Nosso trabalho é incerto, senão seria fácil e pouco lucrativo! Entretanto, quando o número de incertezas é muito maior do que nós podemos lidar, nos submetemos a um estresse gigantesco. Portanto, para operar com esses sistemas, é ÓBVIO que a pessoa precisa se preparar emocionalmente! De fato, a conta demo não te prepara para essas emoções!

Mas eu repito: trading não era pra ser emocionante. Era pra ser um tédio. 

Devemos aspirar ao tédio no trading, porque isso será um sintoma de que estamos mais preparados com o que lidamos. Continuaremos a lidar com incertezas, mas estaremos mais preparados diante de cada cenário possível.

Quando fazemos alguma coisa com tédio, com rotina, diminuímos o papel do neurotransmissor dopamina, responsável pela excitação emocional e pelo apreço a situações de risco. Essa substância é responsável por enxergarmos o trading como um cassino. Pouco a pouco, apagamos nossa capacidade de raciocínio para dar lugar a alma de um jogador, que coloca todas as fixas na última jogada. 

O que fazer então?

Não vou fazer propaganda de curso aqui. Não é o objetivo desse blogue, e não seria desse post. Mas alguns cursos poderiam ensinar mais as pessoas a não operarem qualquer coisa, porque é isso que está fazendo o brasileirinho perder dinheiro no mercado.

Sugiro que você tome conhecimento da ementa dos cursos antes de comprá-los. Procure saber se o curso tem ao menos um vídeo sobre gerenciamento de risco e manejo de capital. Procure saber com os alunos se o curso também te ensina em quais situações seria bom NÃO operar. Se você souber dessas duas coisas, acredite: não vai entrar em 90% das furadas que a gente vê por aí...

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

a janela de ouro

fazer um diário de trades é bom para aprender. Eu ainda não fiz o meu. Mesmo assim, consigo perceber repetições danosas ao meu desempenho. E, ao invés de me esforçar para mudar isso, prefiro respeitar meus limites.

Aconteceu mais de uma vez comigo. Eu começo a operar no gain. Algumas operações depois, perco tudo que ganhei. É fácil acabar com isso: basta ter uma meta diária de ganho e perda e parar de operar quando alcançá-la. Também percebo que existe uma 'janela de ouro', um intervalo de tempo no qual a nossa performance está a mais produtiva possível. Para mim, a janela de ouro tem as seguintes características:
  • Operar no horário em que a sua expectativa se alinhe com o mercado. Se você quer se aproveitar da volatilidade, opere em horas que o mercado tenha muito volume. Para mim, o intervalo entre 10 e 11 horas é o ideal no mini-índice.
  • Nos primeiros trinta minutos de trading, opero sem nenhum cansaço mental. Se terminar a primeira hora perdendo, acabo nas horas seguintes tentando recuperar o prejuízo. Na maior parte das vezes, consigo recuperar ou diminuir, mais o último do que o primeiro.

Portanto, minha 'janela dourada' consiste em operar no máximo uma hora por dia, a partir das dez horas da manhã. Normalmente bato as metas de lucro ou de prejuízo nessa primeira hora, e meu desempenho não costuma ser melhor do que isso nas horas seguintes. Seria boa ideia parar de operar depois desse período, mesmo perdendo, porque a experiência mostra que, depois disso, os resultados são insatisfatórios. De fato, em muitos casos eu consegui recuperar o prejuízo depois das onze horas mas, uma vez zerada a perda, os trades seguintes geralmente são perdedores, porque tenho muito cansaço mental.

O que acontece aqui é a mesma coisa que eu falei no post sobre dopamina. Quando ganhamos algum jogo que envolva risco, ficamos eufóricos. Basta a euforia se instalar para atrapalhar nossa percepção. Começamos a menosprezar sinais importantes do mercado, achando que teremos o mesmo sucesso. É como se você desejasse repetir o ritual daquilo que lhe gerou uma sensação agradável. É que nem droga.

Eu queria ter o meu julgamento completamente inalterado após dois ou três trades vencedores. Mas a resposta fisiológica mais comum é ficar eufórico e trocar os pés pelas mãos. O que é mais fácil? Aprender a conter as emoções durante o trade ou parar de operar, comemorar e em seguida voltar a operar, depois de uma pausa?

De um modo geral, adultos choram e riem muito menos que as crianças. Talvez porque eles já viram tantas coisas que fazem chorar ou rir que, com o envelhecimento, fica-se mais indiferente às coisas que nos causaram emoções. Os estímulos causam respostas cada vez menos intensas.

Eu acho que a emoção de operar funciona assim também. Depois de anos e anos operando de forma consistente, acredito que não mais ficaremos tão emocionados a ter uma sequência vencedora de trades, porque aquilo se tornou algo habitual. O problema da gente é querer contratar um coach para resolver coisas que o tempo e a experiência resolveriam.


quinta-feira, 20 de junho de 2019

os perigos da dopamina no trading

Em todos os nichos de traders na internet, só se vê pessoas altamente motivadas, postando frases de efeito, tentando convencer a si mesmos de uma mentalidade vencedora ensinada por algum coach da moda. Fico a me indagar se, na hora de operar, isso prejudica mais do que ajuda.

Tenho a hipótese que estados provocados de euforia e/ou entusiasmo podem comprometer o desempenho da avaliação de cenários, algo imprescindível para um bom trader. Por enquanto, é só uma hipótese, e acho que seria necessário buscar em neurociências as consequências da dopamina, o neurotrasmissor envolvido em estados de excitabilidade e recompensa.

Com todos os links que obtive para fazer esse artigo, se mostrou claramente que a dopamina é o neurotransmissor envolvido nos circuitos cerebrais de recompensa. Quando fazemos uma atividade cujo retorno é positivo para nós, a dopamina é liberada, gerando euforia, excitabilidade e otimismo. Isso é um mecanismo da natureza para nos estimularmos a buscar atos e objetos cujas consequências não nos sejam danosas.

Entretanto, uma coisa é você ser um homem das cavernas e gerar dopamina matando um javali selvagem, saboreando um delicioso assado que lhe proporcionará nutrientes para sua sobrevivência. A outra é gerar dopamina sentado na frente do computador, clicando no home broker igual um tarado, esperando pela recompensa financeira. A natureza fez os circuitos de dopamina visando o primeiro caso, não o segundo.

Este é mais um caso em que o estilo de vida da pós-modernidade não consegue se beneficiar da nossa neurofisiologia (o primeiro é armazenar gordura de qualquer coisa que comemos). O excesso de dopamina faz com que você opere apenas pela sensação gerada, e esse que é o problema.

Diante de você, dezenas de vezes durante o dia, haverá situações em que o mercado sinalizará claramente que não é a hora ideal de se entrar numa operação, mas você entrará, pensando que está buscando lucro. Na verdade, você entra numa operação porque está viciado na sensação proporcionada pela dopamina. Aí é loss na certa, pois a busca pelo prazer dopaminérgico é tamanha a ponto de desconsiderar configurações do mercado.

O pior de tudo é que você não terá a mínima noção disso. Vai pensar que o mercado é imprevisível, e por isso perde toda hora. Não, meu querido(a), o mercado é suficientemente previsível para que milhares de pessoas ganhem dinheiro dele. Você está perdendo dinheiro porque seu foco não é lucro, é a maldita sensação causada pela dopamina, aquele tesão ao apertar o botão esquerdo do mouse em cima das teclas "comprar" e "vender".

Experimenta ver como sua frequência cardíaca aumenta durante o pregão. Pega um monitor de frequência cardíaca e registra sua frequência de noite, quando está relaxado, de dia, antes do pregão, e durante o pregão. Se a sua frequência cardíaca aumentar muito durante o pregão, é sinal de que a dopamina está entrando em ação, pois ela faz a musculatura cardíaca liberar catecolaminas que aumentam a frequência do coração.

Agora que expus o problema pra você, vamos tentar resolvê-lo.

Atitudes para reduzir o estresse dopaminérgico.

Nos meus últimos anos no Rio de Janeiro, segundas, quartas e sextas, eu atendia num consultório médico dentro de um sindicato. Havia dias em que eu não atendia nem cinco pessoas, algo considerado um tanto atípico para a profissão médica.

Por conta desse número pequeno de pacientes, certos dias eram entediantes. Eu passava o tempo no laptop, acessando a internet, estudando e lendo. Do espectro de emoções, eu sentia prazer e tédio, nunca excitação ou tristeza. Era uma gama bem morna de emoções.

Apesar de ser entediante, eu sabia que, atendendo cinco ou cinquenta pacientes, meu salário seria o mesmo. Portanto, eu agradecia a Deus pela oportunidade de trabalhar num local tranquilo, pois ao mesmo tempo em que ganhava dinheiro, exercitava meus hobbies.

Estou narrando uma situação que pode ser muito quotidiana para a maioria das pessoas. A maioria dos seres humanos é assalariada: oferece sua força de trabalho em troca de uma quantia fixa mensal. Muito se critica esse estilo de vida mas, como traders, podemos emular esse estado emocional visando melhorar nossa produtividade e consistência.

Quando sentir preguiça de acordar antes das nove horas para estudar o mercado e operar, você não está encharcado de dopamina, e isso é o sinal de que você já experimentou o mercado suficientemente para concluir que não vai ficar rico da noite pro dia. A preguiça de operar mostra que seu cérebro está assemelhando o trading cada vez mais a um trabalho rotineiro com pouca recompensa, e isso não é ruim, pois você não estará mais viciado na sensação causada por um neurotransmissor, e as chances de entrar numa operação porque você avaliou corretamente são maiores do que entrar simplesmente por tesão dopaminérgico.

Convenhamos, a maioria das pessoas acha um saco acordar cedo, porque elas sabem que vão fazer a mesma coisa no mesmo lugar todos os dias úteis da semana. Com os traders iniciantes, isso não ocorre porque estamos ainda viciados na sensação de recompensa, mas adivinha? Se você quiser ser um trader consistente, vai ter que fazer as mesmas coisas das mesmas formas em todos os dias úteis da semana.

Portanto, como se emular o tédio de um emprego? Criando normas para se operar. Essas normas tem de ser obedecidas à risca, e isso será um banho de água fria nos circuitos dopaminérgicos. Para isso existe o plano de trading. 


para que ter um blog de mercado?

A era da sociedade do espetáculo é marcada por peculiaridades como reality shows e a superexposição da intimidade de pessoas comuns nas redes sociais. Mas antes desses fenômenos patognomômicos, outra tímida manifestação é o diário pessoal online, iniciado com o blogger no final do século passado.

Os blogs começaram como diários pessoais, evoluindo logo em seguida para divulgadores de conteúdo específico de infinitos temas, de jornalismo a jardinagem, incluindo mercado financeiro.

A internet está quebrando o paradigma da transmissão de conteúdo ser feita apenas por autoridades no tema. Com efeito, qualquer pessoa que se interesse por um assunto pode compartilhar suas impressões na experimentação desse saber, desde que tenha humildade de se colocar no seu devido lugar. Se ela for leiga, que se coloque como tal e respeite os que a precederam.

Respeitando essa premissa ou não, vê-se na internet milhares de blogs difusores de conteúdo. Esse blogue é mais um deles, que não se restringe apenas ao segundo uso da plataforma, mas também visa sua finalidade primordial, que é de registrar o quotidiano do usuário-redator.

Eu não sou nenhuma autoridade no mercado financeiro; sou um reles trader iniciante, começando a ter uma lucratividade tímida com day trading de mini dólar e mini índice; entretanto, o registro das minhas impressões e operações online pode ser um facilitador da minha evolução.

No mercado financeiro, é preciso registrar o que se faz, de modo a perceber o que funciona ou não para si; esse registro pode ser feito num simples caderno, ou numa planilha de Excel. Entretanto, registrar online, num blogue, e com tom professoral, tende a facilitar mais a memorização de conceitos.

É pra isso que eu escrevo. Muitas pessoas podem se beneficiar dessa escrita, e posso me orgulhar de ter ajudado a alguém; mas preciso deixar claro a mim que o principal beneficiário sou eu.


arrogância no ensino do trading

Enquanto entusiasta do mercado financeiro brasileiro, passei por diversos cursos de trading, da análise gráfica tradicional ao tape reading.

Muito dessa procura se justifica mais na vontade de encontrar uma técnica mais adequada ao meu jeito de ser (e até agora, como sou uma pessoa muito visual, análise gráfica tem sido muito boa pra mim) do que buscar o santo graal do trading. Até porque, após mais de dois anos estudando mercado, você percebe que qualquer técnica pode ser uma porcaria sem o gerenciamento de risco adequado.

Os professores que mencionam abordagens diferentes das suas (isto é, quando eles não fingem que elas não existem, o que já seria uma atitude mais digna a meu ver) sempre tendem a desmerecer ou diminuí-las. O argumento principal é "nunca vi a técnica X dar lucros consistentes"

Esse raciocínio é perigoso porque se apoia em evidências anedóticas. Quando o professor diz isso, ele está contando com sua memória, em conseguir recordar os exemplos de traders que usavam uma técnica diferente da sua. Mas há mais de um argumento contra essa afirmação (e contra ao modo como a mesma é construída).

Em primeiro lugar, a profissão de trader é deveras solitária. Você precisa apenas ficar diante de uma tela, sem maiores intercâmbios com outros seres humanos. Operar em salas apenas te dá dimensão das perdas dos operadores que estão na sala, e somente quando os mesmos comentarem suas perdas, ou mostrarem suas notas de corretagem para você - algo que a maioria não faz.

Em segundo lugar, a memória humana é falha. Com o passar dos anos, a plasticidade cerebral faz com que as memórias sejam modificadas pelo seu portador, causando distorções dos fatos.

Em terceiro lugar, se a estatística de apenas 10% de traders vencedores e consistentes estiver certa (há quem diga que são apenas 2%), ainda assim ela não especifica quais abordagens fariam parte dessa elite. Considerando que a distribuição dos métodos no mercado tem por maioria análise gráfica, esses 10% também tem uma chance de serem compostos majoritariamente por grafistas, mas isso é apenas uma chance e seria interessante uma pesquisa.

Diante desses argumentos, desmerecer o método alheio mostra presunção. O professor/trader só pode falar de si, dizer que se adaptou ao seu método e o dominou a ponto de ensiná-lo. E ter sinceridade ao mostrar que a maioria dos métodos podem dar dinheiro se houver gerenciamento de risco.

A meu ver, o principal dano que esses professores causam é quando dizem que análise gráfica não funciona. Alunos incautos caem nesse conto, e passam a depender de indicadores pagos específicos de apenas uma ou duas plataformas, quando um bom trabalho de análise feito com candlesticks e indicadores gratuitos encontrados em qualquer plataforma já os fariam ganhar MUITO dinheiro.

O fato da técnica desses professores funcionar não significa que análise gráfica séria, levando-se em conta todos os fatores que os livros sérios recomendam na hora da análise, não funcione. O problema brasileiro do ensino de trading consiste na criação de um espantalho da análise técnica, uma caricatura grosseira e simplória da mesma, que obviamente não vai funcionar.

Eu recomendo a todos uma leitura dos livros sérios de análise técnica. Estamos muito audiovisuais, privilegiando cursos caros, ao invés de remetermos às fontes que formaram a maioria dos professores brasileiros. Não tenha intermediários, vá direto à fonte.